Linha Separação (SC) O combate que levantou e derrubou o mito

Esta postagem foi extraída do blog Associação Recreativa Cultural Nacional de Dionísio Cerqueira, de propriedade de Cleiton Weizenman. Ele realizou um trabalho investigativo de recuperação da história que marcou a cidade de Dionísio  Cerqueira, quando a Coluna Prestes - saiba mais aqui - passou por aquele lugar. A matéria foi publicada na íntegra. Todos os créditos são de Cleiton Weizeman.

MARIA PRETA, 1925 A FULGURANTE DEFESA - PARTE I

Capa do Livro Marchas e Combates de Lourenço Moreira Lima


Dentre os combates travados por esta coluna (Coluna Prestes), salientam-se pelos seus resultados e afirmação cada vez maior... o rompimento do cerco de S. Luiz, o da Ramada... a retirada do Rio São Francisco... e “a Fulgurante defesa de Maria Preta” feita por 70 homens do B.F.V., diretamente comandados por Cordeiro de Farias, contra mais de 2000 adversários de Claudino Nunes.
Cordeiro recebeu ordem de entrincheirar-se nesse ponto e ai deter o avanço da Coluna Claudino, afim de João Alberto, que fazia a retaguarda da retirada de S. Francisco, como ficou dito poder atingir a picada para Barracão.
Cordeiro cumpriu galhardamente a missão que lhe fora confiada, até esgotar o ultimo cartucho, somente retirando quando a tropa de Claudino transpunha as suas trincheiras; e recuou em ordem, penetrando na picada que já fora alcançada por João Alberto, cobrindo-se assim de gloria pelo denodo com que se bateu.
 Lourenço Moreira Lima- Marchas e Combates 1931.


Lourenço Moreira Lima - O Bacharel Feroz

Gostaria de salientar aqui que outro livro de grande valor e muito usado em pesquisas por isso devesse tomar o devido cuidado é “As noites das grandes fogueiras”, escrito por Domingos Meirelles (reporter conhecido nacionalmente), porem ele comete um grande erro em seu valoroso trabalho no que diz respeito aos combates aqui acontecidos, ao misturar este combate com o da Separação, em sua obra ele comenta o seguinte:
...ao anoitecer... os rebeldes atraem as forças inimigas para um lugarejo chamado Maria Preta... na fronteira com a Argentina. Claudino e Firmino Pain ficam perdidos na escuridão...em mais de 4 horas de encarniçados combates, é surpreendente: cerca de 200 homens abatidos dos dois lados, (uma alusão ao combate de Separação).
Domingos Meirelles, As noites das grandes fogueiras, pgs. 349 e 350.

Voltando ao foco de nosso trabalho, desde este combate se passou 87 anos, o que teria acontecido realmente naquele dia em linha Maria Preta? Quantas foram as baixas? Que marcas este combate tão histórico deixou em nossa cidade? Como esta hoje o local? Estas são algumas de muitas perguntas que serão respondidas a partir de hoje, numa serie de cinco capítulos  em mais um trabalho de resgate feito por nossa entidade.
Não perca amanha a segunda parte desta historia a entrevista com o morador que reside ao lado de onde se travou o embate, o Sr. Geraldo Cella.


MARIA PRETA, 1925 A FULGURANTE DEFESA - PARTE II

Vista Geral da Área

Saímos na segunda feira passada 23/01, em direção a linha Maria Preta, precisamente o que queríamos era, conversar com o Sr. Geraldo Cella, a fim que o mesmo tirasse algumas duvidas que tínhamos sobre a localização exata onde havia ocorrido o famoso combate que levou o nome daquela comunidade. Neste trabalho precisávamos localizar, um local físico para dar ênfase a nossa tese em relação à veracidade dos fatos e isso nos levou a procurá-lo.
Ao trafegar pela BR 163, fiquei imaginando como seria tudo aquilo naquele ano de 1925, o que não consegui fazer; agora restava a ajuda de nosso ancião o Sr. Cella, que me recebeu com muita hospitalidade em sua residência. Após as devidas apresentações comecei a fazer as perguntas ao que sem ressentimento algum, começou a nos relatar o que sabia:

Geraldo Cella

Meu nome é Geraldo Cella, tenho 85 anos, cheguei aqui dia 04 de outubro de 1964, eu sou natural de Cachoeira do Sul, município do Rio Grande, depois de algumas andanças vim parar aqui, em geral tudo aqui era mato”. Ao ser questionado sobre a revolução que havia passado por onde anos mais tarde seria sua residência ele assim nos relatou: “eu quando cheguei ouvi falar de trincheira então eu fui La ver, tinha um buraco assim de mais ou menos 12m de comprimento e 40 cm de fundura, porem acredito que hoje não tenha mais nada nesse lugar, já que tudo virou lavoura, o que fiquei sabendo na época é que tinha ali em cima uma tropa de soldado e atiravam para cá, e que segundo seu Juventino, um ancião que na época também residia aqui perto, atrás da minha casa havia sido enterrado um oficial revoltoso, e também o Beno Blau que tinha terra ali do outro lado da BR cerrou os pinheiros que estavam todos cheios de bala dentro, aqui na minha lavoura uma vez minha falecida mulher estava capinando e encontrou dois pentes de fuzil, um estava intacto” ao ser questionado sobre o Juventino Pinto, um senhor que já foi aqui no blog mencionado e que encontrou diversos artefatos nas trincheiras citadas nesta entrevista ele confirmou dizendo que havia visto diversos materiais que o mesmo encontrou, ao fim da entrevista ele comentou sobre o erro das autoridades em deixar o local no esquecimento e levantou de sua cadeira para me mostrar onde estavam as duas forças e o local onde havia a cruz em que o oficial foi enterrado.
Após encerrar a entrevista fiquei muito feliz, pois havia sanado minhas duvidas o combate foi real, deixou marcas, cicatrizes, agora é hora de recuperá-las, então peguei a minha câmera e tirei uma foto ampla em que pegava toda a área de realização do combate, que é esta foto a seguir:



Obs: No traço em amarelo estavam as tropas legalistas de Claudino (este é o local das trincheiras, onde vários objetos foram encontrados), enquanto as tropas revolucionarias estavam na área vermelha, o ponto preto indica onde o tenente revolucionário foi enterrado, enquanto que a listra em azul é a picada existente na época.
Desvendando estas duvidas e conhecendo o real local onde tudo aconteceu chegamos ao fim da segunda parte deste especial, deixando para amanhã a terceira parte que digo aos amigos ser imperdível, pois amanha contaremos o nome do oficial que ali foi enterrado, alem do objeto que encontramos ao ir fotografar as trincheiras ou a plantação em que hoje se tornaram.

MARIA PRETA, 1925 A FULGURANTE DEFESA - PARTE III

Importante descoberta.


Geraldo Cella, com o braço em direção ao ponto preto, local onde estava a cruz e o tumulo.
Sempre tive a vontade de saber quantos eram os mortos deste combate, mas nos livros que li só encontrei algumas citações que não davam um numero exato apenas que haviam ocorrido diversas baixas, quase todas do lado legalista. Pois bem, talvez por se tratar de uma grande quantidade de soldados, os legalistas eram um alvo muito maior para o pequeno contingente de Cordeiro, que por isso teria derrubado mais adversários.
Mas se atendo ao fato do oficial revolucionário, e a única perda daquele batalhão no combate, quem seria ele? sob que circunstancia teria morrido? Onde foi enterrado? 
O local de sua sepultura foi nos mostrado pelo Sr. Cella o entrevistado da postagem de ontem, ele mostrou aonde era a sepultura deste valente tenente.

Agora porem era a vez de verificar sua identidade já que sabíamos ser a única baixa em algum lugar haveríamos de encontrar algo a respeito; e sem sombra de duvidas encontramos, no livro Farrapos de Nossa Historia livro dificílimo de ser encontrado o autor João Silva, faz a devida homenagem aquele revolucionário:
“Cordeiro teve muita felicidade: perdeu apenas o bravo Ten. Ustra, filho de Uruguaiana. Este oficial que manejava um fuzil metralhadora, havia sempre se portado valentemente. Sua morte ocorreu no instante em que destravava a arma, que havia engasgado. Veio uma bala e o feriu mortalmente no rosto. Morreu rindo-se dentro da trincheira.” 
Farrapos de Nossa Historia pg. 46.


Agora esclarecendo este lado, constatamos o esquecimento e o tumulo perdido em meio a uma plantação deste combatente, que vergonhosamente não teve o devido respeito das autoridades de nosso município.


Um achado que valeu a visita.

Atravessaremos agora para o outro lado da BR163, a fim de conhecermos as trincheiras dos legalistas, a foto nos da à real dimensão de como esta o local nos dias de hoje...



...das trincheiras só tem mesmo é a recordação, de propriedade da família Blau, tudo virou lavoura, como podemos conferir na foto; porem como já tínhamos a experiência de conhecer linha separação e saber como munições e armas saltam a terra ao passar as maquinas no plantio e colheita, resolvemos procurar algo naquelas proximidades. Sabendo que o Sr. Juventino encontrou diversos cartuchos de armas e objetos de montaria, não tive pra mim muita surpresa ao encontrar uma velha e enferrujada ferradura de cavalo em um buraco em meio à plantação (detalhe em vermelho na foto)...


...sei que muita coisa existe neste local, e a postagem de hoje é mais uma prova as autoridades de que tudo foi real, e que existem marcas até hoje, basta querer resgatar...continua amanha...



MARIA PRETA, 1925 A FULGURANTE DEFESA - PARTE IV

A historia dos pinheiros.
Passaram-se alguns anos do combate e os moradores da região como os ancestrais da família Blau, alem de donos de serrarias que se implantaram por esta região, começaram a cortar os pinheiros que eram abundantes; Para a surpresa e raiva dos donos de serrarias as serras começaram a se quebrar, em grande quantidade, quando foram verificar o que acontecia descobriram que eram as marcas do combate que haviam ficado nas arvores, centenas de milhares de tiros estavam encravados por toda a região de Maria Preta, estragando aqueles pinheiros ao menos para a fabricação de tabuas.
Hoje como vemos na foto abaixo ainda temos alguns representantes destas belíssimas arvores, crescendo ao lado das velhas e encobertas trincheiras.

Pinheiros ao lado das trincheiras em Maria Preta.
A BR163 rompeu ao meio as duas trincheiras, ironicamente como se fosse para ser assim, de um lado ficaram as trincheiras dos revolucionários e do outro a dos legalistas; dezenas, milhares, quem sabe milhões de pessoas passam anualmente pela rodovia, a 30m do local onde tudo ocorreu, mas nada sabem que estão ao lado de um local histórico.

Do lado direito vemos a casa dos Cella ao fundo era o esconderijo dos revolucionários, ao lado esquerdo da rodovia, estavam os legalistas. 
Amanha a parte final desta saga; qual será o futuro deste local? De que valeu fazer este trabalho?

MARIA PRETA, 1925 A FULGURANTE DEFESA - PARTE V

Como escrevemos durante toda a semana chegou a vez da ultima postagem e é a hora de encerrar esta serie; algumas perguntas ficaram sem respostas, como quantos foram os legalistas que tombaram neste combate. Porem o que importa foram as descobertas que tivemos ao longo desta semana.



 Tudo o que sabíamos era o que estava escrito nos livros de Lourenço Moreira Lima, Domingos Meireles e João Silva este ultimo que inclusive combateu aqui no município. Porem ao conversarmos com o Sr. Geraldo Cella muitas duvidas foram sanadas e percebemos que tudo ainda era real, espaços físicos ainda existiam, foi uma grande alegria descobrir o tumulo do Tenente Ustra de Uruguaiana, alem de é claro achar a ferradura nas trincheiras; tudo isso teve grande ajuda do Sr Cella e sua família, sem eles tais descobertas não seriam possíveis.



Os pinheiros destaque na postagem de ontem foi outra historia muito interessante que aqui pudemos contar.







 Sem mais delongas gostaria de fazer as considerações finais deste trabalho: O combate de Maria Preta é hoje uma pagina esquecida na historia do Brasil, a falta de consciência dos órgãos responsáveis de nosso município e região, deixaram toda esta historia no esquecimento.
Fizemos este trabalho praticamente sem condição alguma, com um velho gravador e uma câmera fotográfica, com 5 reais que abasteci uma velha moto fui até a casa do Sr. Geraldo para entrevistá-lo; as nossas condições de fazer o trabalho que estamos fazendo é quase as mesmas dos locais que estudamos, enquanto ouvimos políticos falarem na radio que estão investindo fortemente no resgate histórico do município, vemos um dos maiores locais históricos completamente abandonado. Enquanto vemos milhões serem investidos e anunciados para o município, vemos a cultura e nossa historia abandonada, aqui não faço apologia e nem estou do lado de político algum, este apenas é um comentário de quem vê as coisas no completo abandono.
Outra questão que é importantíssima relembrar são os heróis que lutaram esta revolução, tanto legalistas como revolucionários, não existe progresso sem luta, e esta revolução foi importantíssima para termos o Brasil que temos hoje.
Neste contexto do ultimo parágrafo, aqui se faz justa uma homenagem, podemos com franqueza afirmar que o maior nome nesta revolução aqui em Dionísio Cerqueira, foi Cordeiro de Farias...

Cordeiro de Farias

...o seu batalhão foi conquistador de feitos grandiosos, e muitas vezes seu nome desaparece por que Prestes, teria ficado com todas as glorias, mas que hoje sabemos não foi bem assim, já que o responsável pela defesa de Maria Preta foi ele Cordeiro; o Prestes também teve sua participação ao longo de toda a marcha, mas ele foi mais um no meio de tantos que merecem destaque. Gostaria aqui de exaltar o nome de Miguel Costa grande comandante da revolução...

General Miguel Costa

...que não pode de jeito nenhum ter seu nome apagado da historia ou ser menos mencionado nesta revolução do que Prestes, já que foi o grande comandante da coluna paulista, e todos sabemos que se a revolução não estourasse em São Paulo aqui no Sul não existiria essa marcha. 
Vi a 30m da rodovia aquele local no profundo silencio, que nem sequer desperta a curiosidade de quem passa por ali, nem uma placa, um sinal, nada para contar sua historia, o tempo se encarregou de reduzir suas lendas...

Foto ilustrativa das trincheiras
...as trincheiras sumiram pela ação do tempo, a fenda se nivelou ao solo, e ali quantos mortos repousam sem um digno enterro, ou uma misera homenagem, o sangue daqueles combates não existe mais; porem mesmo com o passar dos tempos a lenda que fica daquele combate de Maria Preta é muito maior do que aquelas trincheiras abandonadas, e na memória do povo dia após dia serão contados os mortos as dezenas, trincheiras cobertas de sangue, enquanto isso ali embaixo daquela plantação e depois da próxima que virá, perpetuará aqueles soldados e seus pertences, glorificados ao menos na memória popular; pelo menos isso... 
Após este combate os revolucionários subiram a serra de Maria Preta e ao chegar em Separação fugiram, deixando as duas tropas legalistas de Claudino Nunes e Paim Filho frente a frente, onde ocorreu o famoso combate de fogo amigo, que tantas vezes aqui já mencionamos;