Confusões históricas e teses de viés [COLUNA PRESTES]

Croqui nº 1 indicando planos revolucionários

Fiz várias publicações neste blog, que ressaltam a importância de se rever a história do Brasil em todos os sentidos. Como este blog possui um elo com a história da Revolução Brasileira de 1924 até 1930, fico restrito a esse período e nada mais. É importante que isso seja feito - rever a história - por essa razão empenho-me em tratar desse período. De vez em quando publico o lançamento de algum livro ou reproduzo alguns artigos ou teses que julgo interessantes sobre o tema. O acervo do Jornal O Estado de São Paulo está repleto de notícias sobre a Revolução Brasileira de 1924, entre essas notícias estão várias publicações sobre a maior marcha militar que a história do planeta registra, a Primeira Divisão Revolucionária, conhecida como Coluna Miguel Costa/Prestes, ou simplificadamente, por Coluna Prestes. A imagem que ilustra essa postagem data de treze anos atrás, época em que quase nada se sabia sobre a Coluna, condição que pouco mudou até os dias de hoje, quem escreveu a matéria, diz que os arquivos doados ao CPDOC pela família de Juarez Távora - Subchefe do Estado Maior da Coluna - pertenciam a ele, quando de fato pertenciam à  Divisão Revolucionária. Em 1926, os chefes da Divisão Revolucionária acharam melhor entregar os documentos ao pai de Juarez, que morava na Fazenda Ambargo, no interior do Ceará, lugar onde os revolucionários estavam. Eles entregaram os documentos por receio de sofrerem alguma emboscada e não poderem sair dela, o que levaria a captura desses documentos e a uma possível derrota da Divisão Revolucionária. Depois de 1930, quando Juarez assumiu o Comando do Nordeste, no cargo de Vice Rei, ele recuperou esses documentos e os manteve sob sua posse.
Na matéria do jornal, é possível ver outras confusões, uma delas é quanto ao comando da Divisão Revolucionária. O autor diz que a marcha foi comandada por Luiz Carlos Prestes e que foi empreendida entre 1924 e 1927. Para esclarecer isso é preciso separar os fatos e explicá-los detalhadamente, para que sejam entendidos de forma clara, a fim de desfazer certas confusões que implicam em ideias errôneas que podem remeter o leitor a uma confusão ainda maior. A marcha da Divisão Revolucionária que percorreu o Brasil, iniciou em abril de 1925, nove meses depois da Revolução eclodir em São Paulo, em 05 de julho de 1924. Dezenas de textos, teses, livros etc, equivocadamente, relatam que a Revolução em São Paulo acontecia paralelamente com a Revolução do Rio Grande do Sul, sob o comando de Prestes. Relatam também que a Revolução em São Paulo era comandada pelo marechal Isidoro Dias Lopes - o que é uma verdade - só que raríssimos textos falam que Isidoro Dias Lopes comandava as tropas do Exército, não falam nada ou falam muito pouco sobre a participação das tropas da Polícia Militar de São Paulo, comandadas pelo major Miguel Costa, que se recusou a cumprir a ordem do marechal Isidoro, que propunha a retirada das tropas revolucionárias de São Paulo, no dia 08 de julho, três dias após o início da Revolução. Ao se recusar a cumprir a ordem do marechal, Miguel Costa salvou a Revolução, tomou a capital e a manteve sob seu governo por mais 21 dias. No mesmo dia 08 de julho, o marechal Isidoro se retirou da Revolução magoado com o descumprimento de sua ordem e entregou o comando ao major Miguel Costa, que resolveu a situação sozinho.   Miguel Costa, de posse da capital, pediu ao marechal Isidoro que se reintegrasse ao Comando - pedido aceito. Só no dia 27 de julho os revolucionários se retiraram. A retirada foi necessária por dois motivos e foi possível por um motivo. Foi necessária quando o governo intensificou o bombardeio e enviou tropas de todo o país com a ordem de esmagar tudo o que encontrassem pela frente. A retirada foi possível, por causa da ação inteligente e ágil do coronel João Cabanas, que pertencia à Polícia de São Paulo. Ao coronel João Cabanas foi dada a missão de abrir o caminho, a todo custo, pelo eixo da Mogiana. Missão que ele cumpriu com êxito e louvor. Outro oficial da Polícia Paulista foi incumbido de abrir caminho pela estrada da Sorocabana, só que esse oficial - tenente Francisco Bastos - não conseguiu cumprir sua missão, o que empurrou os revolucionários paulistas para uma única trilha, que ligava ao Paraná, e no encalço deles, seguiam mais de 20 mil soldados aliados do governo.
Enquanto tudo isso acontecia em São Paulo, no Rio Grande do Sul não acontecia nada, só em 29 de outubro de 1924, quase quatro meses depois do início da Revolução, que Luiz Carlos Prestes soube dos acontecimentos e se mobilizou para iniciar um levante no Sul. Esse levante só foi possível, por causa do envio de tropas revolucionárias paulistas que já estavam no Estado do Paraná, para o Estado do Rio Grande do Sul, tropas que foram comandadas pelo coronel João Francisco, do Exército brasileiro - região sul, e pelo coronel Juarez Távora, também do Exército, região sudeste.
Luiz Carlos Prestes só assumiu efetivamente o comando da tropa gaúcha, depois da morte do capitão Mario Portela, que comandava a tropa gaúcha. Sem armas e sem munição, na iminência de ser cercado pelas tropas legalistas de Borges de Medeiros (Governador do Rio Grande do Sul), restou a Prestes e a sua tropa, realizar também uma retirada, se não se retirassem, seriam todos esmagados. A sorte que Prestes teve foi a de passar com a sua tropa algumas horas antes das colunas amigas (legalistas) do coronel Claudino Nunes Pereira e do civil Firmino Paim Filho se encontrarem no escuro e se confundirem com a tropa revolucionária de Prestes. As tropas de Borges de Medeiros trocaram tiros por horas seguidas, até identificarem que estavam do mesmo lado, o que deu à tropa de Prestes, a possibilidade de se distanciar do inimigo, alcançar a divisa com Santa Catarina, esperar parado por dois meses seguidos um carregamento de armas que não poderia receber devido a situação em que os revolucionários paulistas se encontravam no Estado do Paraná, atacar com o Destacamento Cordeiro de Farias e João Alberto a retaguarda do general Cândido Mariano Rondon e ser rechaçado pelas tropas governistas, para depois de sete meses se unir aos revolucionários de São Paulo que estavam no Estado do Paraná à espera das tropas de Prestes.
Os registros mostram que foi assim que as coisas aconteceram. Se foi assim que as coisas aconteceram, como é que paralelamente à Revolução ainda em São Paulo, Prestes levantava sua tropa no Sul? Esse é apenas um pequeno exemplo das distorções que esse elo da história apresenta - distorções muitas vezes motivadas por viés.
A parte principal da matéria trata dos abusos que a tropa promoveu em algumas comunidades do interior do Brasil, só que existiram coisas piores do que esses abusos e aconteceram coisas boas também, que contarei em uma próxima postagem.