RELATÓRIO LEGALISTA DO MOVIMENTO DE 1924 [POR CEL PM GEORGE HENRIQUE ALVES]


Revolução de 1924

Extraído do blog Coluna Miguel Costa/Prestes

Por que Coluna? Por que saíram da cidade? (I)
Em 05 de julho de 1924 iniciou-se a revolução. Pouco se sabe sobre o que se passou no dia a dia da população ou das tropas durante este período. 

Para ajudar a esclarecer esta parte da história, vou publicar alguns relatórios da tropa legalista que tratam dos combates dentro da cidade, dos desentendimentos entre as tropas legalistas paulista e federal; são citados nomes de ruas e lugares até hoje existentes: Vila Moraes (na região do Cursino), Vila Deodoro (entre o Parque da Aclimação e a Av. Lins de Vasconcelos) Vila Seckler (Heliópolis), regiões na sua maioria constituída de chácaras.
Note-se que é citado um batalhão alemão. A capital paulista possuía muitos imigrantes europeus, muitos veteranos da 1ª Guerra Mundial. Com a eclosão da revolução organizada pelos militares, uma boa parte da população tratou de aderir aos revoltosos, já que o governo não era "do povo e para o povo". 
Sem direitos trabalhistas nenhum, com salários indignos, explorados ao máximo pelos patrões, os trabalhadores que já possuíam alguns direitos em sua terra de origem, resolveram apoiar a revolução. Havia tropas de alemães, húngaros, italianos, poloneses, tcheco-eslováquios etc, ajudando os revoltosos a combater as tropas federais. 
Abaixo, o relatório do comandante do Curso Especial Militar, o equivalente na época ao Curso de Formação de Oficiais. Após a revolução, todos os oficiais, de todos os quartéis, tiveram de elaborar um relatório de suas atividades e apresentá-los aos seus comandantes, do menor posto até o maior. Neste caso, é do coronel José Sandoval de Figueiredo, comandante da escola, para o Comandante Geral da Força, Coronel Pedro Dias de Campos.
Em breve postarei de outros oficiais que dão detalhes mais impressionantes do que se passou. 
Espero que gostem.
Até lá!
FORÇA PUBLICA D O E S T A D O D E S Ã O P A U L O
CURSO ESPECIAL MILITAR
Ao excellentissimo senhor coronel Pedro Dias de Campos, Digníssimo commandante geral da Força.

RELATÓRIO
Em cumprimento a determinação constante do artigo 12º do detalhe de 1º do mês findo, venho apresentar a V.Excia. o relatório deste Curso, na parte referente á ultima revolta.

E F E C T I V O
Tinha o Curso, na manhã de cinco de julho, um effectivo de trinta dois homens, assim discriminado:
- Officiaes ..................... 8
- Alumnos ....................... 7
- Inferiores .................... 4
- Cabos e soldados ............. 13
- S o m m a................ 32.
Desses, um inferior, um cabo e quatro soldados, foram presos pelos revoltosos, quando se dirigiam para o quartel pela manhã.

ARMAMENTO E MUNIÇÃO
Possuia o curso duas metralhadoras pesadas, uma leve, dois fuzis metralhadores, setenta fuzis e perto de dois mil cartuchos, que foram conduzidos para a repartição Central de Polícia, na manhã desse dia.

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Desse armamento só se encontraram uma metralhadora pesada e um fuzil metralhador, não se sabendo o destino dos demais, apezar da circular que opportunamente enviei aos commandantes de Unidades, pedindo informações a respeito.
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CONHECIMENTO DA SEDIÇÃO
No dia cinco de julho, às seis horas, pouco mais ou menos, fui informado em minha residência, pelo capitão Francisco Garcia, que os quartéis do lº, 2º e 4º batalhão, tinham sido tomados e occupados por força do Exercito, não tendo podido explicar o motivo de caso tão singular. Ordenei-lhe que agrupasse os alumnos fora do quartel e fosse a este e dahi transportasse para sua residência, que fica próxima, todo o armamento e munição, o que foi feito, sendo que parte desse material foi transportado, pelos quintaes.
Momentos após cheguei ao quartel e ahi fui informado de que o coronel Domingos Quirino Ferreira, então commandante geral da Força, estava preso e recolhido ao quartel do regimento de cavalaria.
Deante dessa informação reuni os officiaes presentes:-capitães José Antonio Sampaio, João Dias de Campos, Francisco Garcia e o 2º tenente Antonio Luís de Sá, seis alunos, um cabo e um soldado e, com e1les me dirigi á Secretaria da Justiça, a cujo titular, Excellentissimo senhor doutor Bento Pereira Bueno, nos apresentamos, tendo deixado tomando conta do quartel os segundos sargentos- amanuenses Severiano Baptista de Oliveira, Sebastião Donato, 3º sargento Antonio de Almeida Candeira, um cabo, dois soldados e a gu­arda respectiva, que era do lº batalhão e compunha-se de um cabo e três soldados.
Pouco depois chegavam egualmente áquella Repartição o capitão Vicente Garcia e o 1º tenente Euclydes Marques Machado, que foram avisados em suas residências e para ali também se dirigiram ficando faltando dos officiaes, sómente o capitão Nathaniel Prado, que fôra preso em sua residência, na manhã desse dia, conforme posteriormente fui informado.
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Este Commando após ter-se apresentado ao excellentissimo se­nhor doutor Secretario da Justiça e da Segurança Publica, foi destacado para o Palacete dos Campos Elyseus afim de guardar o Palá­cio e a pessoa do excellentissimo senhor doutor Presidente do Es­tado.
Ali chegando ordenou a construcção de trincheiras nos flancos onde ainda não existiam, sustentando a defesa até o dia oito, data em que seguio com cem praças, para ir operar no alto das Perdizes, devendo apresentar-se ao senhor coronel Kingelhoffer, na rua da Consolação, em frente á respectiva igreja, onde recebeu ordem emanada do excellentissimo senhor coronel commandante geral, para dirigir-se á Policia Central.
A 9 marchei com as forças legaes, fazendo alto na Villa Sacomann, ás sete horas. Após um curto descanço subi para Villa Seckler. A 10 fui designado para commandar o terceiro batalhão de guerra, ali organisado com uma companhia do quinto batalhão, sob o commando do capitão Franklin Robilot, uma do segundo corpo da guarda civica, sob o commando do capitão José Garrido e uma outra do corpo de bombeiros, sob o commando do capitão Marcinio Pereira da Costa, no mesmo dia, á tarde, marchei com o batalhão, combatendo, até a coluna do Ypiranga, onde acampei (annexo I (l)). Nesse avanço tivemos um cabo e um soldado mortos, da companhia de bombeiros. A 12, ás dez horas, segui com o batalhão ate Villa Deodoro, installando-me como reserva no saliente Sul dessa Villa(annexo I (5)). Na mesma, data, ás dezenove horas, regressámos ao Ypiranga e acampámos. A 15 marchei com o batalhão, passando por Villa Deodoro, até o Cambucy, onde estabeleci, ficando com a companhia de bombeiros (companhia Marcinio) como reserva e enviando as companhias dos capitães Garrido (guarda civica) e Robilot(quinto batalhão) para guardarem as alturas que dominam o valle da avenida Independência, desde Villa Deodoro até o largo do Cambucy. A 16 regressamos ao Ypiranga e acampámos . A 20 avancei de novo e occupei o sector que vae da rua Orozimbo até a rua Espírito Santo (Cambucy).
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Dada a auzencia de carta da Capital e de civis que pu­dessem me orientar e não conhecendo eu o bairro, foi com difficuldade que attingi a linha de resistência que me fora destinada, onde cheguei sem ser hostilisado graças á forte cerração que então reinava; logo, porém, que a cerração começou a dissipar-se foi o batalhão alvejado por tiros de fuzis e de metralhadoras partidos da igreja da Gloria e da cocheira da limpeza Publica, o que determinou a suspensão dos trabalhos para a organisação das trincheiras, iniciados immediatamente após a nossa chegada naquelles pon­tos. Abrigadas as praças por detraz dos muros e casas visinhos só dois dias após conseguiram terminar as trincheiras, porquanto só podiam trabalhar durante a noite. A 22 a companhia do capitão Marcinio substituiu a do capitão Garrido, que teve um homem morto durante a occupação da trincheira. A 23 a companhia do corpo de bombeiros, do comando do capitão Marcinio, tenentes Faria, Bolina, Frederico e Roque, avançou, debaixo de um fogo intensissímo, approveitando as saliências e reentrâncias das casas, até a rua Pires da Motta, onde se installou. Nesse avanço os officiaes e praças revelaram muito valor, tendo nelle se distinguido os officiaes e praças constantes do annexo XI (21). A 24 avancei com o resto da tropa, debaixo do fogo do inimigo collocado no morro do piolho e na igreja da Gloria, até a altura desta, occupando: - a companhia do capitão Robilot a rua Apiahy com Lavapés (ao pé da igreja), a do capitão Garrido a rua Scuvero (á esquerdo do famoso morro, chamado pelos nossos soldados "Morro da Morte"). Na tomada das trincheiras da esquina da rua Lavapés com Apiahy e rua Lavapés esquina com a rua Scuvero, distinguiram-se os officiaes constantes dos anexos XI (20) e XII (22), sendo que na primeira foram aprehendidas pela companhia do capitão Robilot uma metralhadora pesada, quatro cofres de munição para metralhadoras, dois cunhetes de munição, dez fuzis mauzer e algumas peças de equipamento, avulsas, e feitos oito prisioneiros. Ficou ahi ferido o soldado António Rodrigues, com uma bala no braço direito e o inimigo teve dois mortos. Na tomada da trincheira da Rua Scuvero esquina com Lavapés, houve tres feridos.
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e um morto. Este era um ponto estratégico de grande importancia, pois, era por ali que passavam todos os recursos enviados pelos revoltosos, concentrados no theatro São Paulo, para a igreja da Gloria. Foi um feito notável e arriscadíssimo e seria longo enumerar todas as peripécias que ali occorreram. Os heróes foram o capitão Portugal, da Marinha, com seu canhão 38 m/m, o capitão Garrido , com suas praças e o tenente Adonias, com suas famosas metralhadoras, os quaes aprisionaram estrangeiros constituídos de allemães, húngaros, tcheco-slovacos na trincheira. No mesmo dia tomámos, com auxilio do canhão do capitão Helvécio, tambem da Marinha, o tal morro do piolho e, á tarde, foi tomada pelo tenente Lima, da guarda civica, uma outra trincheira da mesma rua Lavapés, adeante da famigerada Padaria Siciliana, de cujo terraço o inimigo muito nos hostilisou. Esta trincheira tivemos que a abandonar por ordem superior, visto como o meu batalhão já estava avançado e quasi desligado das alas direita e esquerda. Nessas posições me conservei até o dia vinte oito, data em que marchei para a Capital, aquartelando-me no 1º batalhão, onde me conservei de promptidão até o dia trinta um, data em que foi dissolvido o batalhão de meu commando, sendo eu e os meus officiaes incorporados ao Curso.
Escapou-me de assignalar o seguinte accidente occorrido quando eu occupava o ultimo sector:- Havendo na rua Pires da Motta,esquina da rua Appeninos, uma trincheira de onde o inimigo muito me hostilisava, dispus-me a derrubal-a com o canhão 38 m/m, de Marinha, que commigo se achava e antes de o fazer comuniquei ao commandante Afro, que se achava á minha esquerda, minha intenção pe­dindo-lhe que a occupasse logo que estivesse desfeita. Respondeu-me o commandante Afro que dita trincheira ficava fora do seu sec­tor e que tendo se entendido a respeito com o commandante do 8º B.C., em cuja zona de acção ficava a referida trincheira, por aquel1e official foi respondido que não arredava um passo do logar, sem ordem.-annexo XXII (23)- Apezar disso distrui dita trincheira dando disso conhecimento ao alludido commandante do 8º B.C. que, entretanto, não a occupou, tendo-a o inimigo reconstruido durante a noite seguinte.
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Os alumnos e praças do Curso, levados para a Policia Central, na manhã de cinco, dali seguiram com o comandante Joviniano, para o Palacete dos Campos Elyseus. Desses, um cabo foi aprisionado pelos revoltosos, quando a força marchou para ir operar fora da cidade e um alumno ficou extraviado, recolhendo-se depois á sua casa. Os outros, cinco alumnos e um soldado, a 9 seguiram do Palacete para Guayaúna, sob o comando do capitão Herculano de Carva­lho e Silva, do 4º batalhão, incorporando-se á Divisão sob o commando do exmº sr. General Eduardo Socrates, ahi permanecendo até o dia 28.
Quanto aos officiaes de meu commando, executaram os serviços que constam das informações juntas, que passo ás mãos de V. Excia. em original.
As outras praças do Curso:- três inferiores, um cabo e dois soldados, permaneceram tomando conta do quartel até o dia 9, em que estiveram apoiados pelo 4º batalhão, retirando-se nesse dia, a tarde, para suas casas, apresentando-se no dia 28, quando retomámos os quartéis. O alumno do 2º anno, Esdras Evilmrodach de Oli­veira, constou-me que aggregou-se aos revoltosos, e um inferior, um cabo e dois soldados, deixaram de se apresentar, pelo que foram excluídos por deserção.
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CESSAÇÃO DA LUTA
No dia vinte oito de julho, pela manhã, achando-se o batalhão de meu commando occupando as posições da rua Pires da Motta, esquina da rua Bueno de Andrade, rua Mazzine, rua Muniz de Souza, esquina com a travessa do mesmo nome, teve ordem emanada do P.C. para entrar na cidade, de onde o inimigo havia se retirado. Pou­co depois marchou o batalhão nessa direcção, fazendo alto no largo do Palácio do Governo para, em seguida, marchar em direcção ao quartel do 12 batalhão, onde aquartelou e permaneceu de promptidão até o dia trinta um, data em que foi dissolvido.
Com o meu batalhão vieram os canhões 75 e 38 m/m, da Marinha, que com elle, se achavam operando no Cambucy.
No deccorrer dessa promptidão dirigi-me ao quartel desta Unidade, encontrando-o em completa desordem:- mezas viradas, gavetas arrombadas, moveis quebrados,etc., e sob a guarda de um soldado do 1º batalhão, que havia ficado com os revoltosos, esse soldado fil-o apresentar, escoltado, ao commandante daquelle batalhão e providenciei para que o mesmo fosse guardado por um cabo e três soldados do quinto batalhão, retirados do batalhão de guerra que eu commandava.
Pelos innumeros documentos aqui encontrados e por mim envia-los á Commissão de inquérito e ao sr.dr. Director do Gabinete de Investigações e Capturas, verificou-se que o quartel, no período de 9 a 28, foi occupado pelo batalhão allemão.
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Vinte quatro horas depois de retomada a cidade pelas nossas forças, o Curso tinha o seu effectivo com falta apenas de cinco homens, sendo:- um alumno do 2º anno, um 2º sargento amanuense,um cabo e dois soldados, que foram excluídos por deserção e ainda não se apresentaram nem foram capturados.

EXTRAVIO DE ARTIGOS
Durante aquelle periodo foram extraviados e inutilisados pe­los revoltosos os artigos constantes da relação em frente, da carga do Curso, os quaes já foram retirados do respectivo livro, conforme ordem desse Commando, em detalhe de 24,25 e 26 do mez findo.
Foram egualmente encontrados diversos outros que não pertenciam á sua carga, que foram restituídos aos corpos aos quaes pertencem.
Quartel em S.Paulo, 10 de outubro de 1924.

José Sandoval de Figueiredo

O Tenente Coronel Commandante