QUEM TRAIU QUEM?



O ano era 1926, o ex-presidente Arthur Bernardes já havia deixado a presidência do Brasil e transmitido o cargo ao presidente eleito, Washington Luiz.
Próximo a essa transição a marcha da Primeira Divisão Revolucionária (Coluna Miguel Costa / Prestes) perdera a sua razão de existir, motivo que levou o Comandante Miguel Costa e o seu chefe do Estado Maior, juntamente com os Comandantes de Destacamentos, João Alberto, Cordeiro de Faria, Djalma Dutra e Siqueira Campos decidirem levar a situação em que se encontravam ao Chefe supremo da Revolução, que era o marechal Isidoro Dias Lopes.
Um dos objetivos da marcha era levar a Revolução aos quatro cantos do país e sustentá-la pelo máximo de tempo, outro objetivo, era a destituição do presidente Arthur Bernardes. A marcha funcionaria como uma pedra no sapado do presidente. Por que então eles encerraram a marcha quando Washington Luiz assumiu a presidência? Porque de acordo com as promessas do novo presidente, o que os revolucionários pleiteavam seria atendido pelo novo Chefe do Executivo, ação que não se tornou realidade tempos depois, como demonstra os fatos da época. Restava-lhes então a continuidade da Revolução.
Surgiu a possibilidade dos revolucionários se unirem à Aliança Liberal de Getúlio Vargas que, de acordo com João Alberto Lins de Barros, para eles – revolucionários – pouco importava quem seria o novo Chefe que eles iriam apoiar, desde que esse Chefe cumprisse com o programa dos tenentes.
Para se continuar a Revolução e apoiar Getúlio, em troca do cumprimento do acordo firmado entre eles, os tenentes necessitavam eleger só um dos revolucionários para ser o único representante oficial de toda a Revolução. O escolhido foi Luiz Carlos Prestes, ele era moço e era também querido por quase todos os integrantes da marcha, além disso, ele era do Exército e representava a imagem adequada que os revolucionários precisavam para apresentar ao povo brasileiro, como bem destacou João Alberto e Nelson Tabajara de Oliveira em seus livros.
No ano de 1926, Lourenço Moreira Lima e Djalma Dutra foram escoltados pelo Destacamento Siqueira Campos até a cidade de Passos de Los Libres, a fim de conferenciarem com o marechal Isidoro Dias Lopes, para ouvirem do Chefe supremo os destinos da marcha. Isidoro decidiu passar o comando da Revolução de suas mãos para as mãos de Prestes – transferência de comando que se deu de forma tranquila. Para salvarem a Revolução, todos tinham concordado com isso, esse fato ocorreu em 1926, conforme jornal argentino da época, em que consta uma declaração do General Miguel Costa: encontro-me aqui como representante do General Prestes.
Prestes passou a ser o novo comandante da Revolução – é bom frisar que a marcha a essa altura já havia se encerrado – e com o comando em mãos, ele quem foi parlamentar com Getúlio Vargas, no Rio Grande do Sul. O novo Chefe da Revolução, com 27 anos, que havia substituído o velho Isidoro, com mais de 60 anos, já carregava com sigo os ideais marxistas, só que isso ele não revelou a ninguém, guardou oportunamente para si e maquinou, juntamente com seus novos amigos da Internacional Comunista, o maquiavélico plano de se fazer no Brasil a mesma Revolução que se fez na Rússia, que era denominada de a verdadeira revolução, que o tempo nos mostrou depois outra verdade.
O que alguns livros que tratam sobre Primeira Divisão Revolucionária (Coluna Miguel Costa / Prestes) têm escrito em suas páginas é a afirmação de que o único caminho para a paz mundial e a perfeita harmonia dos povos é o comunismo. Essa linha de pensamento é muito clara nos livros sobre a Coluna de autores como Werneck Sodré, Caio Prado Junior, Jorge Amado, Anita Prestes e outros que são nomes famosos e de segmento comunista. Parece-nos óbvio que isso não passa de uma justificativa de um sonho que, além de não ter acontecido, se acontecesse, o desfecho seria o que já vimos, ou seja, uma catástrofe social acompanhada de genocídio, igual ocorreu na URSS.
Fala-se da evolução do pensamento de Prestes durante o tempo que se dedicou a estudar os fundamentos marxistas e encontrar nesses fundamentos a única resposta para os graves problemas do Brasil da época. Afirma-se claramente e, pejorativamente, que os tenentes se venderam a Getúlio Vargas, dando a ideia de que todos eles, com exceção de Prestes, não passavam de corruptos desleais ao novo chefe militar da Revolução, que os próprios tenentes haviam escolhido para representá-los. Tenta-se criar a imagem de Prestes como um personagem puro e purificador do veneno que os chamados donos do poder envenenavam a população brasileira.
Podemos ler, em uma tese de doutorado que virou livro, textos com técnicas de escrita que utilizam a repetição para manter aquela ideia que se quer entalhar na mente do leitor, além de apresentar discursos falhos e confusos apoiados em ideologia pessoal que causa efeito contrário ao positivo.
Sabemos que não se pode julgar pessoas por seus pensamentos, que são únicos, oriundos da sua genética, da sua criação e influenciados também pelo seu dia a dia. Mesmo sabendo disso, às vezes incorremos no erro de julgar opiniões, principalmente daqueles que não estão mais presentes para se defenderem, igual o caso dessa tese de doutorado, escrita na época em que o único personagem vivo era o próprio Prestes.
Não foram ouvidos:  Getúlio Vargas, João Cabanas, João Alberto, Moreira Lima, Juarez Távora, Joaquim Távora, Miguel Costa, Oswaldo Aranha, Batista Luzardo e milhares de outros que estiveram envolvidos nesse período.
Sabe-se também que não compete ao bom historiador - por melhor que ela seja - ao narrar fatos históricos, tomar posições sobre os fatos, pois, não há historiador que apresente capacidade suficiente para narrar o passado em que ele não esteve presente, e mesmo se estivesse presente o que narraria seria a sua visão que, por vezes, pode ser diferente de outras pessoas.
Se Prestes se posicionou ao lado dos comunistas e no marxismo viu a solução para todos os problemas do Brasil, nós não podemos julgá-lo. Se Getúlio Vargas manobrou para conseguir o apoio dos tenentes a favor dos seus interesses (diga-se de passagem, que depois da defecção de Prestes o outro nome providencial foi o de Getúlio) também não podemos julgá-lo. Se Miguel Costa, Juarez Távora e João Alberto posicionaram-se a favor da Aliança Liberal e concluíram a Revolução, também não podemos julgá-los. Cada um fez aquilo que achou certo? Tudo para eles era novidade. Quem eram eles? Quem se arrisca a afirmar o que eles eram? Quem se arrisca a afirmar qual deles estava certo? Para os comunistas, Prestes estava certo? Para os liberais, Getúlio estava certo?
Hoje nós sabemos que o nome deles, principalmente o nome de Prestes, foi usado por todos que o cercaram – os tenentes o colocaram à frente da Revolução, como o catalizador que amalgamaria todo o ideal da Revolução. Os comunistas o usaram para fazer no Brasil o que fizeram na URSS. Os liberais também o usaram para difundirem a própria imagem como possíveis salvadores. No final, os tenentes não aceitaram sua mudança de posição, os comunistas não o aceitaram no partido e os liberais não o quiseram. Ele virou um mártir solitário.
Dessa confusão da história o que podemos concluir?