A SITUAÇÃO NOS ERVAIS


Sede da empresa Mate Laranjeira
Faz algum tempo, Hernani Donato, autor de dezenas de livros, entre eles A Revolução de 1932, honrou-me quando escreveu o prefácio do meu livro Marchando com Miguel Costa - título sugerido por ele. Comentou que havia reproduzido este trecho do livro de João Cabanas - A Coluna da Morte. Acrescentou que foi muito criticado por acharem que ele exagerou. Só que ele não exagerou porque ele apenas reproduziu. Quando ele leu em meu livro a mesma reprodução disse-me: você lavou a minha alma

Na minha opinião é um dos trechos mais marcantes do livro A Coluna da Morte e vale a reprodução.
A prudência aconselha, mormente em tempo de guerra, que toda dúvida seja esclarecida. Em razão disso tratei de cortar pela raiz, por meios enérgicos, a possibilidade de ser levado a efeito o mal que os rumores denunciavam e, para tal fim prendi o administrador dos ervais, um tal Santa Cruz e todos os capangas que o acompanhavam, pondo-os em rigorosa incomunicabilidade. Ao mesmo tempo ordenei ao dito Santa Cruz que determinasse, perante mim, aos capatazes presentes, que fossem a todos os ranchos ervateiros e trouxessem a Piqueri a totalidade dos empregados do Sr. Allica, naquela seção, inclusive mulheres e crianças, bem assim o gado vacum e cavalar.
De acordo com a minha vontade e em cumprimento do administrador geral, embrenharam-se na mata os capatazes, destino aos inúmeros ranchos que abrigam os trabalhadores. Passados quatro dias começou a chegar o pessoal, formando-se depois uma multidão de mais de mil indivíduos andrajosos, tendo cada um em si, os característicos da vida miserável que passavam sem os mais rudimentares cuidados de higiene, uns bestializados pelos maus tratos, riam alvarmente, olhar parado em ponto fixo imaginário. A grande maioria com os artelhos deformados pelos bichos de pé, faces entumecidas pela anchilostomose ou pelo mal de Chagas, movia-se lentamente, mulheres cabisbaixas, quase inconscientes sofrendo idênticos males, deixando aparecer pelos rasgões das saias, pernas esquálidas; sentavam-se aos grupos pelo povoado, tendo ao redor crianças cor de âmbar, ventres crescidos, sonolentas e tristes como velhos chineses desesperançados da vida.
No meio desse rebanho humano que parecia ter surgido de ignotas paragens onde o sol não penetra, e não existe civilização, destacam-se arrogantes, supurando saúde, bem vestidos, finíssimos e franjados ponchos ao ombro, vistoso lenço de seda ao pescoço, botas de estilo carnavalesco, retinindo as esporas de prata, os famosos capatazes, modernos e sanhudos feitores, sem alma e sem consciência, brutais até a violência, encarregados de exaurir a força daqueles escravos até o aniquilamento, para extrair da mata bruta, a preciosa folha que remetida aos moinhos de Buenos Aires, se transforma em ouro.
O trabalhador do erval é sem dúvida alguma, um verdadeiro escravo olvidado pela lei 13 de maio de 1888, que dele não cogitou. Na generalidade, nasceu ele na hospitaleira República do Paraguai, onde a fortes quantias adiantadas, é arrebanhado para além das fronteiras de sua Pátria e internado nos ervais do Oeste do Paraná, sendo depois entregue a um capataz que o recebe, mostrando ao desventurado, as insígnias de mando a que tem que de sujeitar-se, conforme o caso: um chicote e um revolver calibre “44”. De ai em diante o estrangeiro a quem acenaram as libérrimas leis brasileiras, perde a sua individualidade nas mãos de estranhas gentes.
O capataz em matéria de autoridade, é um ser único, sui generis; nele se concentram as atribuições que vão desde o soldado de polícia até o Supremo Tribunal Federal e possui dentro do cérebro estúpido, um código de castigos que começa no ponta-pé e segue até o fuzilamento, e as vezes a autoridade do brutamontes estende-se também pelos domínios da religião, impondo ao escravo a sua própria crença.
O escravo é sempre paraguaio ou brasileiro, porém, o capataz, este, na sua quase totalidade viu a luz do dia na província de Corrientes, Republica Argentina, cujos filhos com raras exceções, tem contra o brasileiro e o paraguaio uma manifesta antipatia.
O sistema de escravatura nos referidos ervais toca o auge quando o escravo tem família; pois as primícias da virgindade de suas filhas são o fruto opimo que premia a atividade do capataz e mesmo a esposa e a companheira, não é jamais respeitada, tendo o desafortunado trabalhador de aceitar tudo isto sorrindo ao seu algoz, como agradecido pela preferência que deu à família, distinguindo-a com a desonra.
Se, com humildade, o escravo reclama contra a má alimentação, se na hora do aceso da malária ergue os olhos súplices ao capataz implorando um descanso, se de seu peito oprimido brota um suspiro, traindo a nostalgia que lhe vai na alma, em qualquer desses casos, sente imediatamente no dorso nu e encurvado, caírem as correias causticantes do vil instrumento de suplicio empunhado pelo impiedoso capataz; e, se se revolta contra o vergonhoso cativeiro que o sujeitaram, depois de falazes promessas na generosa terra guarani, rápido como um raio um tiro o abate!
Imagine-se que soma de poderes não enfeixa em suas mãos, o tirano que exerce o cargo de administrador em uma zona onde se explora a industria extrativa da erva mate!
Para os créditos de um País civilizado que goza o Brasil, ainda há maiores afrontas... Os brasileiros nascidos naquelas terras que a natureza criou generosa e que os capatazes dos ervais transformaram em verdadeiro inferno, vivem e morrem como animais sem benefícios das leio do registro civil; da instrução publica e outras de amparo social, para não falar em códigos como o penal e o civil que ali não tem aplicação.
O que aí fica descrito vai talvez surpreender os meus compatriotas que nunca atravessaram as matas do Paraná e dessa surpresa nascerá provavelmente a pergunta:
Porque somente este livro que agora lemos, nos descreve coisas assombrosas , quando outras obras que por aí andam com descrições das zonas, fazem daquele trato de terra, um paraíso?!..
A resposta é muito fácil. Se alguém até hoje não descreveu ou denunciou os sofrimentos por que passam os trabalhadores dos ervais, é porque os que tem escrito livros sobre a zona em questão, por ali viajam com os recursos que fornecem as empresas ervateiras que os cercam de todo o conforto. São cuidadosos em ocultar a chaga hedionda que rebaixa a nossa civilização. Depois, as misérias dos ervais não residem nas estadas reais, e sim nos ranchos espalhados pelas matas, servidos por complicados trihos, semelhantes aos caminhos de bugres. O itinerante literato faz a viajem de Curitiba aos portos do Rio Paraná, rodando em cômodo automóvel, tendo em cada parada um preparado banquete regado a champagne. E para alegrar-lhe as noites no coração da floresta, no rancho de um sub-administrador, topa sempre com baile adrede improvisado, onde as mulheres com roupas novas e cores berrantes, bailam o chopin. Essas criaturas, foram vestidas as pressas com roupas de empréstimo para quebrar a monotonia local e alegrar as visitas do infeliz literato que fumando um puro havana, se embala em macia rede cearence.
O nosso homem literato ou jornalista, chega ao temo da viajem e hospeda-se na casa do administrador geral ou na do proprietário dos ervais, aí um palacete moderno, acolhe em seu seio tudo quanto existe de luxo e conforto sem faltar a bem servida mesa reluzente de prataria e faiscante de cristais da Bohemia, sendo o ambiente, suavizado pelos acordes de uma harmoniosa orquestra. A noite um baile chic, fino, elegante e ilustrado com a presença de formosas damas de touristes, da aristocracia Argentina, acabam de convencer o itinerante, de que o paraíso existe e está colocado no vale do Paraná.
Nos intervalos dos tangos, funciona o Alto-falante e o nosso amigo ouve comodamente sentado, sério e comovido, trechos de operas ou a estourar de riso, a letra pornográfica de uma canção popular executada em bata-clan portenho. Ora, bem sabem os que possam se surpreender com as grandes revelações contidas nestas páginas, que a última impressão, é a que fica arraigada em nosso espírito e sugestionado por ela, externamos os nossos sentimentos. E quem, depois de uma recepção na suntuosa casa de um proprietário de erval, escreve um livro, só faz ressaltarem belezas extraordinárias, esquecendo-se até o autor que em sua viajem os seus olhos não viram moeda brasileiras circular por aquelas zoas e seus ouvidos não escutaram o doce idioma de Camões. Não fora o automóvel, os banquetes, os bailes, e o Auto-Falante, conspirando contra o escritor; este teria sentido quão longe estava do Brasil, embora viajando em terreno brasileiro.
Cabanas, expulsou do território brasileiro o administrador Santa Cruz juntamente com todos os seus capangas. À Coluna da Morte juntaram-se perto de trezentos ex-escravos e os outros voltaram a suas famílias.