POESIA DA MADRUGADA DE 1924 [YURI A. COSTA]








Do vale dos mortos sopra a brisa claudicante.
Invade transe a turva madrugada.
O trote do cavalo ecoa pelo beco sombrio.
A velha cidade envolvida pela névoa antecipa a fina garoa.
Ao raiar, o sol apaga a escuridão.

A pino, reluz o canhão Krupper cuspidor de jato incandescente.
A chama destruidora parteja fogo rubro.
Vida fugaz a fugir do caminho para a eternidade.
Inútil resistir.
Aquele que não sucumbe ao sinistro suporta o calvário no campo do martírio.

Mártir faminto alimenta-se do erval ensangüentado.
Morre a esperança.
Nasce a fé.
Irriga o campo do ideal, afoga a sede de justiça.
Juras de liberdade do plantel, castigadas pelo apócrifo senhor.

O sacrifício era a moeda do barqueiro e a ele quem ousava dever?
Seguir adiante é permanecer para sempre.
Suportar a dor é o remédio para a doença.
Matar é para eles sobreviver.
Viver. 

Navegar por rios de incertezas.
Palmilhar por caminhos seguros.
Ao trilhar acordados podem dormir.
Desconfiados, confiam.
A escuridão abre a porta para luz.  

Na marcha a solidão por companhia.
O silêncio por poesia.
A risada por sinfonia.
A paisagem embriaga o ébrio.
A verdade, o sóbrio.

O Inevitável pedir para doar.
Ver para falar.
Ouvir para fazer.
O chão duro se fez cama confortável.
O calor do fogo o lar aconchegante.

Ah! O destino errante desses heróis. 
A saudade da família a motivação para vencer.
Poucos por muitos.
Destemidos e ousados.
Idealistas e poetas.

Dóceis e severos.
Despidos de vaidade.
Vestidos de humildade.
Entregam seus galões a um só.
Salvam a revolução.

Abjuram da foice e do martelo.
Perdoam o traidor.
Amam seus inimigos.
Hoje jazem no esquecimento.