LEGIÃO REVOLUCIONÁRIA - O QUE VOCÊ SABE?



Discurso do General Miguel Costa à frente da Legião Revolucionária de São Paulo.

Legionários:
Cessada a luta pelas armas, leal e perigosa, verificou-se o triste fenômeno previsto: a luta pelo poder, determinada não pelo desejo de bem servir a pátria, mas para satisfazer vaidades doentias e amparar inconfessáveis ambições de classe.
A obra mais rude não foi, por certo, a das batalhas.
Irmãos valentes com peito aberto as balas, morriam tranqüilos, no silêncio do sertão, absolvidos dos seus erros, ou pagos de seus sacrifícios, pela convicção de que o sangue derramado era a argamassa de um novo Brasil.
Morriam tranqüilos porque a voz da metralha e a miséria da guerra ensina a não desejar uma vida que custe o valor das nossas convicções.
Eram os soldados da Revolução, saídos das casernas ou dos seus lares, convencidos de que partiam para nunca mais voltar.
Hoje, cessada a luta, desaparecem, nas penumbras da modéstia e do esquecimento, esses bravos companheiros das horas incertas. E surgem ávidos, palavrosos, acomodatícios, vultos moral e fisicamente disformes, de ventre largo e alto, gulosos de manjares, de honras e negociatas. E eles tecem, na oficina de suas ambições, os boatos terroristas que alarmam esta boa gente de São Paulo.
E maquinam, concertam e lançam as pequenas intrigas que se refletem no crédito exterior do Brasil. Porque eles querem subir. Porque o governo revolucionário é a sentinela dos dinheiros públicos. Previsto era o fenômeno. Conhecido era o ventre que o havia de gerar nessa gestação de 40 anos de descalabro republicano.
Daí, senhores, a idéia de se organizar a Legião Revolucionária. Ela será o gradil que enjaulará essas feras da fortuna pública. No Paraná, na Clevelândia, em todos os Estados do Norte e do Sul, num percurso de 4.000 quilômetros, maior do que a distância que separa o pólo norte do pólo sul, milhares de cruzes solitárias, com seus braços estendidos ao céu, clamam justiça e pedem energia para que a carne, dolorosamente despojada dos ossos que a sustinham, não tenha desaparecido em vão. Esse o motivo que exigiu a vossa organização. Essa a necessidade de se fortalecerem as legiões revolucionárias de cada município. A força que aqui nos mostra congregada, no momento, é a vossa parcela de boa vontade, de dedicação, de patriotismo. É uma pedra humana da muralha humana que proibirá aos políticos o acesso imediato ao poder. Porque os políticos devem ao Brasil alguns instantes de repouso. Eles são um prolongamento dos processos e dos ideais dos vencidos de outubro. Quem percorrer, como eu percorri, o Brasil em todos os sentidos, quem visitar as margens do Tocantins e do Araguaia, as caudais da Parnaíba, as inúmeras florestas de carnaúba, de babaçu, dos pinheirais do Paraná, os diamantes do Graça, do Manso; as chapadas de cristal – quem visse, como eu vi, extrair platina a enxada, na Bahia, e quem meditar no rolar incessante das nossas quedas d’água, desde o fio humilde que se alonga na quebrada das serras, até o enorme São Francisco, a Iguaçu, e a incomparável Guaira, cuja força ultrapassa centenas de milhares de cavalos a vapor, pode sentir pena dos políticos que se foram, mas não desejará experimentar o tino dos políticos que ficaram. Efêmero e passageiro querem que seja o governo revolucionário de São Paulo os que, despidos de credenciais sonham com a herança do PRP. Efêmera e passageira deve ser apenas a miséria em que os antigos senhores de escravos brancos pretendem manter o nosso povo esfarrapado. Para acautelar interesses coletivos. Para evitar que o povo que já deu alguns passos para frente se irrite e desespere ao perceber que ridículos maquiáveis de casaca e cartola tentam fazê-lo retroceder de novo. A Revolução Brasileira não pode consentir numa simples substituição de homens no poder.