GUERRA DE MOVIMENTO E GUERRA DE TRINCHEIRAS
Yuri Abyaza Costa12:13



Não podemos fazer confusão entre uma coluna em marcha, com a guerra do movimento e nem a confusão entre uma coluna parada, com a guerra de trincheiras - a expressão Guerrilla surgiu na Espanha e tem o sentido de Guerra de Libertação. Parece este o sentido: marcha e movimento, mas não é.
Somente após a invenção da metralhadora e o aperfeiçoamento das armas é que se começou a praticar a guerra de trincheiras. Antes da invenção dessas armas de repetição rápida, totalmente nova nos campos de batalha, se aplicava a tática da guerra de movimentos. Ocorreu no Rio Grande do Sul em 1923 a guerra dos Ximangos e Maragatos, revelando-se um acontecimento parecido com o da 1ª Guerra Mundial, referente às novas armas de repetição rápida. Para essa revolução o governo levou as metralhadoras, arma de combate totalmente nova que varria cavalos e cavaleiros.
O escasso recurso bélico para enfrentar o governo fez os revolucionários usarem as maiores artimanhas, muito diferente das revoluções anteriores de 1835, Farroupilha e 1893, Federalista. Uma nova estratégia foi criada, a guerrilha fracionada: atacar, pilhar ou dispersar e sair. Fazer o governo correr atrás, lutar onde não se esperava, contra forças sem um efetivo preciso.
Essa mesma estratégia de guerra foi usada dentro da capital paulista, durante a revolução, e foi muito bem explicada no jornal A Platéia de 1 de agosto de 1924, no artigo Réprobos. (bandidos da sociedade)


Perseguidos, ameaçados, cercados, dominados, arrancaram de arcabuz ao peito dos depositários, as rendas da União, pagas tão penosamente pelos contribuintes para a defesa do nosso crédito e satisfação dos nossos compromissos; a reserva de vários bancos onde a economia paulista se concentrava e céleres abancaram vorazes pelo interior a fora, dilapidando, devorando cofres municipais, alarmando a população honesta e laboriosa. Pois bem. Na linguagem do senso comum, quem assim age é o réu de polícia. É hóspede da penitenciária é ladravaz perseguido pelo clamor e condenação populares. Para alguns comentadores sem patriotismo isso se chama “guerra de movimento”!
A quem ler estas linhas, passado o furacão da vilanagem que enovelou na mesma aventura fardas e casacas, parecerá exagero nosso e impossível, chamar alguém de guerra o ataque da bolsa alheia e “guerra de movimento” a mágica passagem a mão armada, de valores do patrimônio. (A Platéia. 1-08-1924 São Paulo nº 10, ano 37. Arquivo Público do Estado de São Paulo.)

Apesar de ter entrado para a história que o inventor da guerra do movimento, ou guerrilhas, teria sido Luiz Carlos Prestes, pelo seu relatório a Isidoro Dias Lopes: (...) A guerra no Brasil, qualquer que seja o terreno, é a guerra do movimento. Para nós revolucionários o movimento é a vitória. Essa tática já era aplicada muito tempo antes. Foi utilizada por João Cabanas, inclusive: (...) Em tal ambiente arquitetei o plano de ação, simplíssimo e corriqueiro, de atacar o inimigo nos seus pontos mais fracos e movimentar-me com a maior rapidez possível, surgindo aqui e ali para fazer crer que o ataque era feito por diversos contingentes. (João Cabanas. A Coluna da Morte, p. 79 Assuncion Paraguai 1926. 4ª Ed.)

O acontecimento que fez a coluna do Rio Grande do Sul perceber que a guerra para eles deveria ser de movimento aconteceu nas proximidades de Barracão, mesmo local de onde Prestes escreveu a Miguel Costa seu documento nº 1: (...) Certo de encontrar na pessoa de V. Exª. um fervoroso adepto da guerra de movimento; que sempre imaginei ser a única no Brasil encerro as presentes linhas. (Documento nº1. De Prestes a Miguel Costa. Jornal O Estado de São Paulo. 2-08-1959 - SP.)



O capitão João Silva, em seu livro, Farrapos da Nossa História escreveu: (...) sabiamos que não era possível mantermos uma luta estagiada; uma guerra moderna de trincheiras em que se necessita tempo, material imenso humano e inúmeras outras fontes de valores materiais; recursos estes que são nervos duma guerra, em torno do que tudo gira. A nossa guerra (se referindo a Brigada gaúcha) estava marcada para ser de movimentos rápidos e de golpes precisos, sempre aproveitando os centros fracos do adversário para tirarmos vantagens, e assim foi feito. (capitão João Silva - Farrapos da Nossa História. Pag. 30-31 São Luiz Gonzaga - RS.)

A guerra de trincheiras era uma nova modalidade de guerra, só cabia a quem dispunha de munição pesada - tiro de canhão - e quem não dispunha fazia a guerrilha fracionada, ou guerra de movimento.

NOVAS ARMAS



Enquanto a Inglaterra concentrou a fabricação de armas e munições nas mãos do setor privado, a França manteve sua produção sob os olhares do Rei e isso somado a sua politica conservacionista causou a diminuição da produção de armas na França.
Depois de 1675 houve substanciais aperfeiçoamentos nas armas. O mosquete de pederneira substituiu o de mecha, surgiu um sistema novo e racional de artilharia leve, o que conduziu gradativamente a guerra a uma forma nova de mecanização. Surgiram os cartuchos, já contendo carga e foi desenvolvida a baioneta de anel (ring bayonet - era o primeiro tipo de baioneta que, após armada, permitia o tiro, isso não acontecia com os tipos anteriores que obstruíam o cano).
Foi na organização e no emprego da Infantaria que as relações entre a Técnica e a Tática foram adequadamente articuladas. Foi reduzida a relação entre as lanças e as armas de fogo e aumentada a proporção entre a artilharia e as tropas. A guerra foi se tornando científica. Ou seja: as novas armas foram substituindo a mobilidade que se tinha antes com o emprego das lanças. A guerra iria com o passar do tempo deixar de ser ofensiva (de movimento) para ser defensiva (de trincheira).
Por toda a Europa - e a França não constituía exceção - acreditava-se, de modo geral, que qualquer Guerra travada entre Exércitos de massa seria decisiva e de curta duração. Nenhuma Guerra, acreditavam os peritos, poderia durar mais do que seis meses. Acresce-se ainda que todos os chefes militares da Europa tinham uma grande confiança na capacidade ofensiva de seus Exércitos. Os franceses levavam essa confiança ao extremo. O Cel. Loiseau de Grandmaison acreditava claramente que o espírito ofensivo das tropas francesas haveria de triunfar sobre o mero poder de fogo. Grandmaison opunha-se ao desenvolvimento da artilharia pesada a pretexto de reduzir a mobilidade ofensiva das tropas. Contrariava a ideia de que o poder de fogo era mais importante do que o espírito de luta. Alguns autores militares acreditavam que qualquer guerra futura, mesmo mecanizada, assumiria o padrão geral da Guerra de Trincheiras de 1914-1918. Previam uma guerra de desgaste, de pouco movimento, na qual a defensiva sobrepujasse a ofensiva.
A Guerra de mobilidade era empregada antes do aperfeiçoamento das novas armas. Em um período que era necessário um soldado com espada, lança, carroça e outras armas precárias se deslocar de um ponto a outro para necessariamente empregar a ofensiva. Com o aperfeiçoamento do fuzil (do latin focilis - cano de despejo) e dos canhões, manter a posição e atirar era a nova regra para a nova guerra. As armas desenvolvidas após 1918 revolucionaram a guerra, pois, comprimiam tanto o tempo quanto o espaço. Ou seja: mesmo dentro de uma guerra de trincheira pode haver uma guerra de movimento já que na tática da defensiva pode haver a tática da ofensiva.
Sobre o autor Olá. Meu nome é Yuri Abyaza Costa. Pesquiso a Revolução de 1924 há mais de 20 anos. Meu avô foi o General Miguel Costa. Se eu puder ajudar, entre em contato comigo. Facebook ou Twitter