GUERRA DE MOVIMENTO E GUERRA DE TRINCHEIRAS



Não podemos fazer confusão entre uma coluna em marcha, com a guerra do movimento e nem a confusão entre uma coluna parada, com a guerra de trincheiras - a expressão Guerrilla surgiu na Espanha e tem o sentido de Guerra de Libertação. Parece este o sentido: marcha e movimento, mas não é.
Somente após a invenção da metralhadora e o aperfeiçoamento das armas é que se começou a praticar a guerra de trincheiras. Antes da invenção dessas armas de repetição rápida, totalmente nova nos campos de batalha, se aplicava a tática da guerra de movimentos. Ocorreu no Rio Grande do Sul em 1923 a guerra dos Ximangos e Maragatos, revelando-se um acontecimento parecido com o da 1ª Guerra Mundial, referente às novas armas de repetição rápida. Para essa revolução o governo levou as metralhadoras, arma de combate totalmente nova que varria cavalos e cavaleiros.
O escasso recurso bélico para enfrentar o governo fez os revolucionários usarem as maiores artimanhas, muito diferente das revoluções anteriores de 1835, Farroupilha e 1893, Federalista. Uma nova estratégia foi criada, a guerrilha fracionada: atacar, pilhar ou dispersar e sair. Fazer o governo correr atrás, lutar onde não se esperava, contra forças sem um efetivo preciso.
Essa mesma estratégia de guerra foi usada dentro da capital paulista, durante a revolução, e foi muito bem explicada no jornal A Platéia de 1 de agosto de 1924, no artigo Réprobos. (bandidos da sociedade)


Perseguidos, ameaçados, cercados, dominados, arrancaram de arcabuz ao peito dos depositários, as rendas da União, pagas tão penosamente pelos contribuintes para a defesa do nosso crédito e satisfação dos nossos compromissos; a reserva de vários bancos onde a economia paulista se concentrava e céleres abancaram vorazes pelo interior a fora, dilapidando, devorando cofres municipais, alarmando a população honesta e laboriosa. Pois bem. Na linguagem do senso comum, quem assim age é o réu de polícia. É hóspede da penitenciária é ladravaz perseguido pelo clamor e condenação populares. Para alguns comentadores sem patriotismo isso se chama “guerra de movimento”!
A quem ler estas linhas, passado o furacão da vilanagem que enovelou na mesma aventura fardas e casacas, parecerá exagero nosso e impossível, chamar alguém de guerra o ataque da bolsa alheia e “guerra de movimento” a mágica passagem a mão armada, de valores do patrimônio. (A Platéia. 1-08-1924 São Paulo nº 10, ano 37. Arquivo Público do Estado de São Paulo.)

Apesar de ter entrado para a história que o inventor da guerra do movimento, ou guerrilhas, teria sido Luiz Carlos Prestes, pelo seu relatório a Isidoro Dias Lopes: (...) A guerra no Brasil, qualquer que seja o terreno, é a guerra do movimento. Para nós revolucionários o movimento é a vitória. Essa tática já era aplicada muito tempo antes. Foi utilizada por João Cabanas, inclusive: (...) Em tal ambiente arquitetei o plano de ação, simplíssimo e corriqueiro, de atacar o inimigo nos seus pontos mais fracos e movimentar-me com a maior rapidez possível, surgindo aqui e ali para fazer crer que o ataque era feito por diversos contingentes. (João Cabanas. A Coluna da Morte, p. 79 Assuncion Paraguai 1926. 4ª Ed.)

O acontecimento que fez a coluna do Rio Grande do Sul perceber que a guerra para eles deveria ser de movimento aconteceu nas proximidades de Barracão, mesmo local de onde Prestes escreveu a Miguel Costa seu documento nº 1: (...) Certo de encontrar na pessoa de V. Exª. um fervoroso adepto da guerra de movimento; que sempre imaginei ser a única no Brasil encerro as presentes linhas. (Documento nº1. De Prestes a Miguel Costa. Jornal O Estado de São Paulo. 2-08-1959 - SP.)



O capitão João Silva, em seu livro, Farrapos da Nossa História escreveu: (...) sabiamos que não era possível mantermos uma luta estagiada; uma guerra moderna de trincheiras em que se necessita tempo, material imenso humano e inúmeras outras fontes de valores materiais; recursos estes que são nervos duma guerra, em torno do que tudo gira. A nossa guerra (se referindo a Brigada gaúcha) estava marcada para ser de movimentos rápidos e de golpes precisos, sempre aproveitando os centros fracos do adversário para tirarmos vantagens, e assim foi feito. (capitão João Silva - Farrapos da Nossa História. Pag. 30-31 São Luiz Gonzaga - RS.)

A guerra de trincheiras era uma nova modalidade de guerra, só cabia a quem dispunha de munição pesada - tiro de canhão - e quem não dispunha fazia a guerrilha fracionada, ou guerra de movimento.

NOVAS ARMAS



Enquanto a Inglaterra concentrou a fabricação de armas e munições nas mãos do setor privado, a França manteve sua produção sob os olhares do Rei e isso somado a sua politica conservacionista causou a diminuição da produção de armas na França.
Depois de 1675 houve substanciais aperfeiçoamentos nas armas. O mosquete de pederneira substituiu o de mecha, surgiu um sistema novo e racional de artilharia leve, o que conduziu gradativamente a guerra a uma forma nova de mecanização. Surgiram os cartuchos, já contendo carga e foi desenvolvida a baioneta de anel (ring bayonet - era o primeiro tipo de baioneta que, após armada, permitia o tiro, isso não acontecia com os tipos anteriores que obstruíam o cano).
Foi na organização e no emprego da Infantaria que as relações entre a Técnica e a Tática foram adequadamente articuladas. Foi reduzida a relação entre as lanças e as armas de fogo e aumentada a proporção entre a artilharia e as tropas. A guerra foi se tornando científica. Ou seja: as novas armas foram substituindo a mobilidade que se tinha antes com o emprego das lanças. A guerra iria com o passar do tempo deixar de ser ofensiva (de movimento) para ser defensiva (de trincheira).
Por toda a Europa - e a França não constituía exceção - acreditava-se, de modo geral, que qualquer Guerra travada entre Exércitos de massa seria decisiva e de curta duração. Nenhuma Guerra, acreditavam os peritos, poderia durar mais do que seis meses. Acresce-se ainda que todos os chefes militares da Europa tinham uma grande confiança na capacidade ofensiva de seus Exércitos. Os franceses levavam essa confiança ao extremo. O Cel. Loiseau de Grandmaison acreditava claramente que o espírito ofensivo das tropas francesas haveria de triunfar sobre o mero poder de fogo. Grandmaison opunha-se ao desenvolvimento da artilharia pesada a pretexto de reduzir a mobilidade ofensiva das tropas. Contrariava a ideia de que o poder de fogo era mais importante do que o espírito de luta. Alguns autores militares acreditavam que qualquer guerra futura, mesmo mecanizada, assumiria o padrão geral da Guerra de Trincheiras de 1914-1918. Previam uma guerra de desgaste, de pouco movimento, na qual a defensiva sobrepujasse a ofensiva.
A Guerra de mobilidade era empregada antes do aperfeiçoamento das novas armas. Em um período que era necessário um soldado com espada, lança, carroça e outras armas precárias se deslocar de um ponto a outro para necessariamente empregar a ofensiva. Com o aperfeiçoamento do fuzil (do latin focilis - cano de despejo) e dos canhões, manter a posição e atirar era a nova regra para a nova guerra. As armas desenvolvidas após 1918 revolucionaram a guerra, pois, comprimiam tanto o tempo quanto o espaço. Ou seja: mesmo dentro de uma guerra de trincheira pode haver uma guerra de movimento já que na tática da defensiva pode haver a tática da ofensiva.
author
Yuri Abyaza Costa
Jornalista, pesquisa a Revolução de 1924 há mais de 20 anos. Autor do livro Miguel Costa Um Herói Brasileiro. Colaborador do Museu de Polícia Militar do Estado de São Paulo. Neto do General Miguel Costa, trabalha para manter viva a memória do avô.