A CONTRIBUIÇÃO DA FORÇA PÚBLICA NA REVOLTA PAULISTA


“A Força Pública mau grado sua nobre missão de manter a tranqüilidade geral no Estado de São Paulo, efetivando a ordem pública, na verdade justamente por isso, cabia o ingrato mister de servir como guarda pretoriana incondicional para que o “Herodes” que ocupasse o Catete exercesse despreocupadamente o seu reinado de prepotência contra todas as aspirações do Povo.

A Republica, embora já com um quarto de século de existência, era ainda uma espécie de reinado durante o qual o governo Federal, graças à força que lhe dava o voto a descoberto, impunha condições políticas, sociais e econômicas a toda a Nação. Seu poder de centralização era ainda maior, pois enfeixava em suas mãos a possibilidade de aumentar ao seu bel prazer o número de sufrágios ou anulá-los, mesmo, se isto melhor lhe conviesse, pois, quem decidia da legitimidade das eleições era o Poder Legislativo, cuja maioria política pertencia, também, ao Chefe da Nação.
Não contente com esse enorme poderio centralizador, estudavam, ainda, as forças dirigentes do País a eventualidade de criar uma espécie de “dinastia democrática” graças à qual, os filhos dos mandatários e políticos brasileiros deveriam ser os preferidos pelo eleitorado; justificava-se a medida dizendo que esses jovens eram portadores dos mesmo predicados públicos de seus pais e, como esses eram tidos pela propaganda partidária como sendo os únicos em condições de conduzir a Nação, evidentemente, aqueles deveriam ser os legítimos sucessores no manejo do leme político administrativo.
Era essa, pois, incontestavelmente, uma verdadeira oligarquia plutocrata em que imperava a vontade absoluta dos ricos senhores donos de fazendas e latifúndios, cujo poder e discriminação pairava acima de qualquer consulta aos interesses verdadeiramente democráticos e populares em cujo regime a questão social era considerada mero caso de polícia.
Impunha-se, pois, uma radical reforma de costumes, mais consentânea com a nova ordem econômica existente no Brasil, após a primeira grande guerra e após o advento das primeiras tentativas de implantação de uma industrialização incipiente, com o surgimento de uma nova classe social, o proletariado das cidades, cuja presença e atuação política já vinha se tornando patente nas sucessivas greves e movimentos coletivos desencadeados a despeito da forte reação policial.
A reforma, porém não seria possível através do método pacífico das eleições cuja maquina era totalmente controlada pelas forças oligárquicas detentoras do poder central. Assim, pela revolução, pelas armas, é que o País poderia sair desse estado de cousas verdadeiramente calamitoso.
Aliado a isso tudo – a questão social, repito, como se dizia, era simples caso de polícia – o governo manejava outros argumentos mais “convincentes”, mais enérgicos: chanfalho no Povo, quando seus líderes tentassem qualquer reivindicação.
Greves? Quem pensasse em semelhante absurdo para a época estaria irremediavelmente perdido.
As tenebrosas masmorras do Cambucí, do “Sete de Abril” e do Braz, traziam amordaçados os menores vislumbres do pensamento de liberdade. E, cada vez mais, o governo Central aumentava o vulto de sua opressão.
Esmagados os movimentos grevistas de 1917, 18 e subseqüentes anos; presos ou aniquilados os principais vultos libertários, ainda assim não estava satisfeita a incontida ânsia reacionária do governo Central. E o bombardeio de Manaus, a deposição do governo fluminense, a intervenção federal em Pernambuco e na Bahia, o fechamento do Clube Militar, a prisão do Marechal Hermes, a lei contra a imprensa, tudo era possível, tudo era permitido a um governo representante da oligarquia fundiária e plutocrata da época.
E o Povo, como sempre, desarmado.
O Exército, de heróicas tradições, pequeno, reduzido em seus efetivos e em seu potencial bélico, desarticulado e pouco eficiente, sufocado que fora em várias tentativas da melhoria dos costumes, estava praticamente manietado, sem oportunidade para lances de grande envergadura.
A Força Pública do Estado de São Paulo era, porém, a essa altura dos acontecimentos, um pequeno mas verdadeiro exército, admiravelmente instruído, armado e municiado para a guerra.[1]
Cada vez que surgisse no Brasil um grito de protesto, marchava ela como um aríete, no seu ingrato papel de esmagar a rebeldia. Ela era a tropa de choque, a tropa de confiança da oligarquia, a encarregada da manutenção da ordem, a qualquer preço!
Se marchou para o Paraguai sofrendo as heróicas bravuras da “Retirada da Laguna”; se tomou parte saliente contra a revolta da Armada, dando força a Floriano para a consolidação da Republica; se avançou para o sertão de Canudos contra os fanáticos de Antônio Conselheiro – surgiu, também, contra a revolta da Escola Militar e contra o Povo do Rio de Janeiro no “quebra lampiões” da vacina obrigatória. Lá, como aqui, cumpriu a sua missão: esteve sempre a serviço do poder central no duro papel de manutenção da ordem vigente, mesmo que essa “ordem” não fosse a que melhor conviesse ao Povo, às massas, à nacionalidade. Assim, cada grito de liberdade deveria ser esmagado pelas metralhadoras da Força Pública no seu ingrato mister de guardiã da ordem constituída.
Como, pois, pensar – repetimos – em qualquer tentativa de mudança dos costumes?!
E foi por isso que, quando, um dia, o general Luiz Barbedo, comandante da 2ª Região Militar comentava esse estado de cousas intimamente, com o capitão Miguel Costa, do Regimento de Cavalaria, este lhe respondeu: - “General: para o bem da Pátria o sacrifício deve tocar a todos; tocará também a Força Publica”.[2]
Tempos depois, com Joaquim Távora, Estilac Leal, Juarez e outros, organizávamos o movimento que teria por fim mudar a mentalidade política da Nação.
E, na fria madrugada de 5 de julho de 1924, comemorando o levante de 1922, a Força Pública, em menos de quarenta minutos, se tanto durou a operação, ocupava, revolucionariamente, todos os quartéis, do bairro da luz, o maior reduto de tropas do governo, apossando-se de centenas de armas automáticas, mais de três mil homens, copioso material bélico e dez milhões de cartuchos e, apoiada pelo troar dos canhões do exército, fazia ressoar o grito de rebeldia de um povo oprimido, grito esse há tempos sufocado no peito dos brasileiros que, mal o ouviram, repetiram-no em eco, por todos os rincões da imensa Pátria.
O apelo dos chefes foi ouvido pela tropa. Porquê, oficiais e soldados da gloriosa Força Pública; como os das outras tropas do País, não provinham das fileiras da plutocracia, mas do seio do povo que trabalha, que sofre, que produz.




              [1] Por esse motivo, a Força Pública e o Exército se uniram para dar início à Revolução de 1924. O Exército sozinho não tinha “forças” para combater o governo. Não havia motivo para homenagear o Exército denominando a 1ª Divisão Revolucionária de Coluna Prestes, este do Exército, e sim Coluna Miguel Costa, por ser esse da Força Pública e corporação mais preparada para a luta.
         
              [2] Essa foi a frase de Miguel Costa quando aderiu à Revolução em 1924.