AO MAJOR NELSON DE MELO



Essa carta Miguel Costa escreveu ao major Nelson de Melo que foi o chefe das operações em Catanduvas. A carta é em resposta a uma entrevista que Nelson de Melo concedeu ao Jornal O Estado de São Paulo.

General Miguel Costa fala sobre a Coluna Miguel Costa e Prestes.


São Paulo 23 de agosto de 1959
Meu caro amigo Nelson de Melo.

Você sabe como o quero bem e, por isso, não estranhará essa carta que lhe escrevo procurando esclarecer alguns tópicos de sua entrevista a O Estado de São Paulo. Tenho certeza que o bom amigo, admirador que é da verdade dos fatos, há de gostar de contribuir a restauração dos acontecimentos.
Sua entrevista precisa de pequenos reparos, o que não ocorreria, caso Você em lugar de ter sido preso heroicamente em Catanduvas, tivesse continuado a luta conosco e, permanecido no teatro das operações participasse’ da travessia do Paraguai.
Nessa entrevista você diz:
1º - que a Marcha da Coluna não fora prevista, o que é rigorosamente certo;
2º - que essa marcha foi um episódio isolado em face das circunstancias em que ficou a tropa de Prestes, que resolveu atravessar a fronteira do Paraguai e de lá fazer uma nova incursão pelo território nacional. O que não corresponde à realidade histórica.

O restante da entrevista é certo, com exceção da última frase: “A Coluna Prestes foi iniciativa exclusiva de Prestes.
Não querendo magoar a quem quer que seja, não procurando diminuir as glórias de ninguém e, menos ainda, não buscando engrandecimentos pessoais, pois a minha atuação nada mais foi do que um simples episódio imposto pelas circunstancias do momento, para empregar suas oportunas e ajuizadas palavras, procurarei, tão somente, e a bem da história, recapitular os fatos.
A 7 de fevereiro de 1925, o coronel Fidencio de Melo, emissário de Isidoro, toma o primeiro contato com Prestes na localidade de Barracão, fronteira de Santa Catarina com a Republica Argentina. Fidencio comunica a Prestes o que eu pedia: - Vir para o Iguaçú encetarmos a guerra de movimento. Alias era este o pensamento do chefe que repetia a cada instante: - Parados, derrotados.
Depois  de conversar longamente com Fidencio, Prestes me escreveu a 10 desse mesmo mês a sua primeira carta (Doc. nº 1) em que declara – “Sei que a muito tempo estudara uma marcha da Divisão São Paulo para o norte. Estou convencido de que só com essa marcha poderemos vencer....
Prestes, no entanto, em vez de vir para o Iguaçú, resolveu atacar Palmas e Clevelândia e, somente a principio de abril resolveu marchar para unir-se a nós na “Republica do Iguaçu.
Era tarde! Catanduvas caíra a 29 de março como você bem sabe como!
Com a queda do baluarte que vocês tão valentemente defenderam até o último cartucho, todas as forças do governo naquela região, caíram sobre a minha brigada. Mas minha tropa ainda estava aguerrida; poucas baixas ocorrera no Paraná. Intimado a render-me recusei a intimação; transformei minha frente (alias extensa, pois ia de Salto a Piqueri) em profundidade e recuamos lentamente; combatendo para retardar a marcha do inimigo, sobre a Serra do Boi Preto. Se eu cedesse território rapidamente o inimigo atingiria a estação telegráfica de Benjamim, e Prestes e sua tropa seriam atirados para dentro da fronteira Argentina, terminando ai a Revolução.
Poderá, a muitos, parecer estranha a afirmação do desaparecimento da “Coluna Prestes” quando muita gente atribuiu esse nome a Divisão que percorreu o Brasil. Isso se explica no entanto pelo seguinte: A tropa do Destacamento “São Paulo” quase que exclusivamente de Infantaria, embora mais eficiente nas armas automáticas, era mais morosa do que a do Destacamento Gaúcho, hábeis cavaleiros dos pampas, o que, sem duvida, não convinha a uma guerra de movimento e deslocamentos rápidos como a nossa. Nessas circunstancias, portanto, adaptarmo-nos às contingências da realidade objetiva, que nos indicavam a necessidade imperiosa de misturar paulistas e gaúchos, resolveu-se, na fazenda Cilada Estado de Mato Grosso, a 10 de junho de 1925, conforme consta do meu boletim nº 14, publicados às páginas 470-471, do citado volume, proceder a uma segunda reorganização da tropa que, ainda com o nome oficial de 1ª Divisão Revolucionária, passou a compor-se de quatro Destacamentos sob os comandos de Oswaldo Cordeiro de Farias, João Alberto, Siqueira Campos e Djalma Dutra, ficando Prestes e Juarez fazendo parte do meu Estado Maior. Respectivamente como seu chefe e subchefe.
É compreensível que diferentes autores que fizeram referencias à Primeira Divisão Revolucionária, batizasse a seu talante aquela Coluna em Marcha. Assim, Isidoro chamava-a de “Coluna Phenix”, porque, justificava, como a ave da lenda, ressurgia das própria cinzas. Juarez em seus livros batizou-a de “Coluna Miguel Costa – Prestes, enquanto que outros, inclusive eu, acostuma-nos a designá-la de “Coluna Prestes” em homenagem ao meu chefe de Estado Maior que foi de fato, sem querer deslustrar os outros companheiros, quem mais se multiplicou em toda a campanha. Outros apelidaram-na de “Coluna Invicta”. Porque jamais foi vencida.
Resumindo:
1º - A marcha tal como foi realizada através do Brasil não foi prevista por ninguém;
2º - O prolongamento da luta, no entanto, na esperança de outras adesões e para esclarecimento da opinião publica, era desejado e foi conscientemente determinado (Veja Boletim nº 7 o.c. 159, Doc. n. 21)
3º - a resultante foi uma conseqüência lógica da super imposição das continuas situações de emergência em conflito com essa firme decisão de continuar lutando;
4º - a “Coluna Prestes” que veio do sul desapareceu antes da travessia para a Republica do Paraguai;
5º - não foi portanto a “Coluna Prestes” que atravessou o território daquele País;
6º - esta confusão (agora desfeita, espero) foi provocada intencionalmente ou não, pelos que, por falta de ânimo ou incapacidade física (há casos muito justos, como por exemplo, dos irmãos Brainer) preferiram exilar-se ao invés de continuarem lutando pela causa abraçada.
Assim, meu bom e querido amigo, mato saudades conversando com você por meio desta e assegurando-lhe sempre a minha grande e fraternal estima, sou o seu sempre admirador – (a) Miguel Costa.