A MORTE DE MIGUEL COSTA



Miguel Costa foi convidado para ir ao programa de televisão "Não Durma no Ponto" apresentado por Carlos Manuel da Nóbrega. O programa consistia em ele responder a três perguntas. Respondidas, ele levantou-se, levou a mão à testa em sinal de continência e faleceu.

General Miguel Costa.A Senhora deveria trazer o general Miguel Costa para ele falar sobre a coluna Prestes. Trouxe?
A candidata Maria Helena Xavier de Andrade, candidata do programa “Não Durma no Ponto” sacudiu a cabeça, afirmativamente, à pergunta de Manoel da Nóbrega. Este virou para a esquerda onde estava sentado o general. Emocionado, o velho lutador ergueu-se da cadeira e, a passos firmes foi enfrentar as câmeras.
A meio do caminho estrugiram as palmas. Parou titubeante, surpreso. Fez uma mesura, agradeceu, encaminhou-se até ao animador do programa, cumprimentou-o, estendeu a mão à candidata:

- Temia que eu não viesse?
- Claro que não, general, o Senhor é tão bom!

Manoel da Nóbrega o segura pelo braço:

- General, porque o Senhor diz que não existiu a coluna Prestes?

Miguel Costa nega ter dito isso. Sua voz forte ecoa pelo silêncio do auditório. Tinham-no avisado que ele disporia de três minutos para responder. Passara a semana estudando a forma de sintetizar toda uma epopeia em cento e oitenta segundos, preocupado em não romper as regras do programa.

- General, qual a maior emoção que o Sr. guarda da coluna?

Pigarreia, levanta a cabeça como quem rememora a marcha épica.

- A emoção provocada pelo nosso hospital ambulante. Eram jovens feridos, ensanguentados, deitados em precárias padiolas, varando o sertão sob chuva, sol, poeira, lama. Jovens da pequena burguesia atirando-se a luta com destemor.

Pigarreia

- Foram dois anos e meio, atravessando o Brasil de canto a canto, sem esmorecer, com aquelas padiolas sempre presentes, diante de nós, a mostrar o que é possível o sacrifício por um ideal. Essa a maior emoção que guardo da coluna.

O auditório calado, testemunhando História, vendo, à sua frente um homem, um lutador, uma legenda. Um pedaço da vida do país.

Manoel da Nóbrega faz a última pergunta:

- E em relação aos homens general, qual deles ficou gravado em sua lembrança, de que companheiro o Senhor mais recorda?

Miguel Costa abaixa a cabeça, por uns instantes. Há nomes famosos, vivos ou mortos, que cruzaram a sua história com a dele. Tem-se a impressão que ele procura pesar os valores. Medir a ressonância dos nomes. Não poderia pensar, sua voz se ergue, tremula:

- Os companheiros que vivem na minha memória, são os companheiros mortos. Todos os que tombaram na luta, anonimamente, sem outra recompensa que a consciência de saber pelo que morriam. Esses os companheiros que vivem na minha memória, esses os companheiros que não esqueço, nem poderia esquecer.

Sua voz se cala. Há um silêncio comovido. Ele começa a se retirar.
As palmas arrebentam no auditório. Fazem-no estancar. Seu corpo parece oscilar sob o vendaval de aplausos. Reassume o controle, lívido. Vira-se para o auditório, de frente, ereto.   Para. E então, como que antevendo o fim, leva a mão direita em continência, saúda marcialmente o público. Mais que continência, o gesto tem a dramaticidade de um adeus. Enfrenta ainda, por segundos, o público, firme. Vira-se para a esquerda, e, lentamente vai saindo de frente das câmeras, senta-se, um sorriso nos lábios. Parece adivinhar que por trás das câmeras milhares de paulistas ouviram-no evocar a epopeia, a sua luta. Seu rosto resplende felicidade e orgulho.
E então, subitamente, seu sorriso desaparece na voragem de uma contração. Abre a boca buscando o ar. Os braços, segundos antes marciais, desabam ao longo do corpo. Desliza da cadeira para o palco do estúdio, à frente da assistência atônita. Correm a ampará-lo. É tarde, está morto.
O coração que, na luta, ficara pulsando, aberto sob a ferida no peito coberto de cicatrizes, não resistira.
Vivera pulsando na luta, morrera evocando sua luta. Nunca fugira, nunca faltara.

- Temia que eu não viesse?
- Claro que não General. O Sr. é tão bom! Tão bom. Tão homem.

Jornal Última Hora, sexta feira, 4 de setembro de 1959.
Arapuã.